quinta-feira, 27 de outubro de 2016

#52 - CANÇÃO DE NHA CHICA, Armando Lima Júnior


Nha Chica mulher rija
sete filhos para criar
perdeu seu marido no mar

Andou mexeu vendeu
carregou e criou
seus filhos-de-parida

Os filhos cresceram
voltaram patrões
com suor de Nha Chica

Faltou força e catchupa
seu xaile e seu lenço
sua vida de outrora

Voltou pedinte
de sábado-maria-santíssima
das ruas da cidade

Depois, perdida no esquecimento
foram quatro homens
e um caixão d'Igreja

Nha Chica mulher rija
com sua sina cumprida
morreu sorrindo...

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

#51 - MAGAÍÇA, Reinaldo Ferreira (F.º)

Magaíça, ao partir, não se prende
mas sofrendo no Rand é que aprende
que a mina é inferno, desterro e má sina,
que a terra é o céu de quem vive na mina!

Vem ver o sol, vem ver,
que é morte viver
debaixo do chão!

Diz, Magaíça, diz,
diz adeus à raiz,
diz adeus ao carvão...
O oiro que a mina te dá
não paga a saudade que há
no teu coração!

É lá fora que correm gazelas,
é lá fora que há nuvens e estrelas,
que o milho espigado, na seara a crescer,
parece que pede que o venham colher!

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

#50 - DOIS POEMAS DA PRAIA DA AREIA BRANCA, Sidónio Muralha

1

Na Praia da Areia Branca
os búzios não falam só do mar:
-- falam das pragas, dos clamores,
da fome dos pescadores
e dos lenços tristes a acenar.

Búzios da Praia da Areia Branca:
-- um dia
haveis de falar
unicamente do mar.


2

No fundo do mar,
há barcos, tesoiros,
segredos por desvendar
e marinheiros que foram morenos ou loiros.

Ali, não são morenos nem loiros,
-- são formas breves, a descansar,
sem ambições para os tesoiros
e de cabelos verdes dos limos do mar.

Serenos, serenos, repousam os mortos,

-- enquanto o mar
ensina o mundo a falar
a mesma língua em todos os pontos.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

#49 - CANTO DE BAR, Mário Dionísio


Canta, cantor esquecido, tuas valsas de angústia!

Aqui o canto de bar,
onde vêm parar os que serão suicidas,
gente de todas as nações falando todas as línguas,
emigrados de todos os países.
Aqui o canto de bar
onde ancorou o jogador arruinado
e as mulheres que perderam o número dos amantes
e os moços que sonharm vidas que não puderam ter.
Onde cantores esquecidos cantam valsas lentas e antigas
que trazem a recordação de lares despedaçados.
Onde vieram parar os maltrapilhos perdidos para sempre
e onde as valsas cantadas por vozes arrastadas,
que lembram multidões de coisas,
já não trazem a mínima saudade.
Aqui onde se sabe indiferentemente
que o homem saído há pouco
estendeu a corda e se enforcou na escada.
Aqui onde se joga tudo sem interesse
porque já não há nada para jogar.
É o canto soturno
onde não entra sol nem lua.
Janelas fechadas, só fumo e luz vermelha.,
mulheres de todas as raças de cabelos degrenhados.
Aqui o canto de bar
onde veio parar o lixo de todas as nações.
(Todos que estavam a mais nas cidades e nos lares...)

Canta, cantor esquecido, tuas valsas de angústia!

terça-feira, 27 de setembro de 2016

#48 - A MINHA ALDEIA, Teixeira de Pascoais

Homens, que trabalhais na minha aldeia,
Como as árvores, vós sois a Natureza.
E se vos falta, um dia, o caldo para a ceia
E tendes de emigrar,
Troncos desarreigados pelo vento,
Levais terra pegada ao coração.

E partis a chorar.
Que sofrimento,
Ó Pátria, ver crescer a tua solidão!

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

#47 - OUTRA CANTIGA, Armindo Rodrigues

O querer e não querer
são bocas da mesma fome.
Mas há pão que é de comer
e outro só o nojo o come.
Cravos de chaga sangrando
não alimentam ninguém.
Até onde e até quando
só o que é mal será bem?
Sofre, coração desfeito.
Coração desfeito, espera.
Tudo o que existe perfeito
em imperfeições se gera.

domingo, 25 de setembro de 2016

#46 - CARTA, Alexandre Dáskalos

Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Tenho corpo p'ra sofrer
Boca para gritar
E comer o que comer
Os meus pés que vão
No chão
Minhas mãos que são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica feito
Para o branco me dizer
«Obra de preto sem jeito»
E minha cubata ficou
Aberta à chuva e ao vento
Vivo ali tão nu e pobre
Magrinho como o pirão
Meus fios saltam na rua
Joga o rapa sai ladrão
Preto ladrão sem imposto
Leva porrada nas mãos
Vai na rusga trabalhar
Se é da terra vai para o mar
Larga a lavra deixa os bois
Morre os bois... e depois?
Se é caçador de palanca
Se é caçador de leão
Isso não faça mal nenhum
Lança as redes no mar
Não sai leão sai atum...
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Um pouco de coração
De coração e perdão
Jesus Cristo meu irmão

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

#45 - PECADO ORIGINAL, Corsino Fortes


Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.

Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

#44 - MOTHERWELL (ELEGY FOR THE SPANISH REPUBLIC 108), José Alberto Oliveira

Carvão incandescente
e mineiros de um frio negro,
vítimas da febre geral
e da privação de proteínas

-- um quarto onde cheira a cebola,
um gesto que se desconhece,
a partilha do único ficando azeda.

Foi uma lama que a geada inteiriçou,
os animais de carga que sobreviveram,
pendurada na gentileza

do seu corpo a roupa
interior de um homem destruído.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

#43 - O CAUTELEIRO, Fernanda de Castro

O cauteleiro é velho. Envelheceu
A vender ilusões pelas vielas.
Nos bairros pobres todos o conhecem,
A todos vendeu sonhos em cautelas.

Pequenos, grandes sonhos... À medida
Das várias ambições.
Grandes sonhos de viagem, de aventura,
De glória, de esplendor.
Pequenos sonhos de pequeno amor,
De modesta ventura.

O cauteleiro é velho, mas que importa?
Continua a apregoar cautelas brancas
E a vender ilusões de porta em porta.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

#42 - O MEU CANTO É DE ESPERANÇA, Vasco Miranda

O meu canto é de esperança.

É de esperança sem fim...
O meu canto é de esperança
Que existe dentro e fora de mim.

Não vim a este mundo para viver só.
(O silêncio na minha boca, ainda quando o foi, foi um grito
que me mordeu.)
Eu vivo a dor de todos os que metem dó.
Luto por todo o que caiu na hora em que nasceu.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

#41 - "São sombras que passam despidas", Alexandre Nave

São sombras que passam despidas
caminham sozinhas o laivo das fontes

não falam, não bebem, não abrem o céu
passam descalças o estreito caminho

muradas, sem nome desossam aos dias
amanham descalças as ervas dos rios

sufocam azuis, estaladas de ferida

são fodidas à noite como fábricas.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

#40 - POEMA TIRADO DE UMA NOTÍCIA DE JORNAL, Manuel Bandeira

João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro de Babilônia
                                                                               [num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

#39 - SARITA, António Cardoso

Sarita mora no musseque,
sofre no musseque,
mas passeia garrida na baixa
toda vermelha e azul,
toda sorriso branco de marfim,
e os brancos ficam a olhar,
perdidos no seu olhar.
Sarita usa brincos amarelos de lata
penteado de deusa egípcia
andar de gazela no mato,
desce à cidade
e sorri para toda a gente.
Depois, às seis e meia,
Sarita vai viver pró musseque
com os brancos perdidos no seu olhar!


terça-feira, 5 de maio de 2015

#38 - "Lá ven nhô Cacai da ourela do mar", Onésimo Silveira

Lá vem nhô Cacai da ourela do mar
Acenando a sua desilusão
De todos os continentes!
Ele traz o peito afogado em maresias
E os olhos cansados da distância das horas...

Lá vem nhô Cacai
Com a boca amarga de sal
A boiar o seu corpo morto
Na calmaria da tarde!

Nhô Cacai vem alimentar os seus filhos
Com histórias de sereias...
Com histórias das farturas das Américas...

Os seus filhos acreditam nas Américas
E sabem dormir com fome...

sábado, 21 de março de 2015

#37 - GLOSA DE GUIDO CAVALCANTI, Jorge de Sena

"Perchi' I' no spero di tornar giammai"

Porque não espero de jamais voltar
à terra em que nasci; porque não espero,
ainda que volte, de encontrá-la pronta
a conhecer-me como agora sei

que eu a conheço; porque não espero
sofrer saudades, ou perder a conta
dos dias que vivi sem a lembrar;
porque não espero nada, e morrerei

no exílio sempre, mas fiel ao mundo,
já que de nenhum outro morro exilado;
porque não espero, do meu poço fundo,

olhar o céu e ver mais que azulado
esse ar que ainda respiro, esse ar imundo
por quantos que me ignoram respirado;

porque não espero, espero contentado.

quarta-feira, 4 de março de 2015

#36 - MAR PORTUGUÊS, Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram!
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar,
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

#35 - CRIOULO, Manuel Lopes

Há em ti a chama que arde com inquietação
e o lume íntimo, escondido, dos restolhos,
-- que é o calor que tem mais duração.
A terra onde nasceste deu-te a coragem e a resignação.
Deu-te a fome nas estiagens dolorosas.
Deu-te a dor para que nela
sofrendo, fosses mais humano.
Deu-te a provar da sua taça o agridoce da compreensão,
e a humildade que nasce do desengano...
E deu-te esta esperança desenganada
em cada um dos dias que virão
e esta alegria guardada
para a manhã esperada
em vão...

sábado, 17 de janeiro de 2015

#34 - ADAGIO CANTABILE, Carlos Queirós

O cego deu à manivela
Da velha e triste pianola
Que era a alegria da vila:
Mas já ninguém vem à janela...
-- Pois vindo davam-lhe esmola
E ocultos podem ouvi-la.

domingo, 11 de janeiro de 2015

#33 - CANTIGA DE MANA ZEFA, Rui Burity da Silva

Ainda me lembro dela
          matrona forte desengonçada
tinha sempre uma oração nos olhos
          uma canção nos lábios grossos

          dorme menino dorme
     oh! oh! oh! oh! oh!
          cazumbi não está a vir
     mana Zefa tá lh'olhar

          tinha ciúme do menino
     de quem mana Zefa falava com paixão
          um dia perguntei com ansiedade
     se o menino seria assim como eu

mana Zefa olhou-me tristemente
     e com lágrimas na voz cantou
          -- não fala assim meu menino 
               Deus não faz filho mulato