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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

#70 - VEJAM BEM, José Afonso

Vejam bem
Que não há
Só gaivotas
Em terra
Quando um homem
Se põe
A pensar
 
Quem lá vem
Dorme à noite
Ao relento
Na areia
Dorme à noite
Ao relento do mar
 
E se houver
Uma praça
De gente
Madura
E uma estátua
De febre
A arder
 
Anda alguém
Pela noite
De breu
À procura
E não há
Quem lhe queira
Valer
 
Vejam bem
Daquele homem
A fraca
Figura
Desbravando
Os caminhos
Do pão
 
E se houver
Uma praça
De gente
Madura
Ninguém vem
Levantá-lo
Do chão
 
Vejam bem
Que não há
Só gaivotas
Em terra
Quando um homem
Se põe
A pensar

domingo, 8 de janeiro de 2017

#62 - OS EUNUCOS, José Afonso

Os eunucos devoram-se a si mesmos
Não mudam de uniforme, são venais
E quando os mais são feitos de torresmos
Defendem os tiranos contra os pais

Em tudo são verdugos mais ou menos
Nos jardins dos haréns ou principais
E quando os pais são feitos em torresmos
Não matam os tiranos pedem mais

Suportam toda a dor na calmaria
Da olímpica mansão dos samurais
Havia um dono a mais da satrapia
Mas foi lançado à cova dos chacais

Em vénias malabares, à luz do dia
Lambuzam de saliva os maiorais
E quando os mais são feitos em fatias
Não matam os tiranos, pedem mais

domingo, 4 de dezembro de 2016

#56 - CHAMARAM-ME CIGANO, José Afonso

Chamaram-me um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rês
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela
A minha sepultura
Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive
O diabo na mão

Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi
O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito
De penas dormi
Puseram-me a ferros
Soltaram-me o cão
Mas tive o diabo na mão

Voltei de charola
De cilha e arnez
Amigo, vem cá
Outra vez
Subi uma escada
Ganhei dinheirama
Senhor D. Fulano Marquês
Perdi na roleta
Ganhei no gamão
Mas tive
O diabo na mão

Ao dar uma volta
Caí do lancil
E veio
O diabo a ganir
Nadavam piranhas
Na lagoa escura
Tamanhas
Que tal nunca vi
Limpei a viseira
Peguei no arpão
Mas tive
O diabo na mão