A mestra de lavores
leva, na mala de mão
estrelas, pássaros, flores.
Envelheceu a bordar
a prender em bastidores,
tudo quanto viu passar:
-- Estrelas, pássaros, flores.
Já tem os olhos cansados,
os dedos magros e picados
e sofre docoração,
mas é mestra de lavores
e tem, na mala de mão,
Estrelas, pássaros, flores.
A vida passou-lhe à porta,
passou mas não quis entrar.
Sem alegrias, sem penas,
sem a flor duma ilusão,
foi longa a vida a passar.
Mas agora que lhe importa,
Se em vez de sonhos e amores,
tem, na malinha de mão,
Estrelas, pássaros, flores?
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
#54 - RETRATO, Armando Lima Júnior
Era a Chuva!
As primeiras gotas de agosto caíam...
As crianças, nuas, corriam pela cidade
gritando, com seus gritinhos de inocentes:
Tchilufe! Tchilufe! Tchilufe!
Era a Chuva!
Três longos apitos ecoaram no Porto Grande
o barco dos contratados levantou ferros
com destino às terras do sul...
Era a chuva!
Pelas bandas do Monte-Verde
chovia já torrencialmente!...
Bendito:
A última gota de suor
os troncos em brasa
o teu corpo esquelético secando
Bendito:
Os teus filhos esfomeados
a tua mulher contratada
os teus irmãos emigrando
Bendito:
A casa grande do patrão
o teu salário cem vezes menos
o teu trabalho vinte vezes mais
Bendito:
Os povos que te escravizam
os anos de seca e de fome
e tudo que te destrói
Bendito, mil vezes Bendito
se continuares sentado
na soleira da porta
à espera do Bendito...
As primeiras gotas de agosto caíam...
As crianças, nuas, corriam pela cidade
gritando, com seus gritinhos de inocentes:
Tchilufe! Tchilufe! Tchilufe!
Era a Chuva!
Três longos apitos ecoaram no Porto Grande
o barco dos contratados levantou ferros
com destino às terras do sul...
Era a chuva!
Pelas bandas do Monte-Verde
chovia já torrencialmente!...
Bendito:
A última gota de suor
os troncos em brasa
o teu corpo esquelético secando
Bendito:
Os teus filhos esfomeados
a tua mulher contratada
os teus irmãos emigrando
Bendito:
A casa grande do patrão
o teu salário cem vezes menos
o teu trabalho vinte vezes mais
Bendito:
Os povos que te escravizam
os anos de seca e de fome
e tudo que te destrói
Bendito, mil vezes Bendito
se continuares sentado
na soleira da porta
à espera do Bendito...
Subscrever:
Mensagens (Atom)