Silencioso e tranquilo
Como um rastro de desgraça,
No outro lado da praça,
O lento cortejo passa
Das meninas do asilo.
São todas órfãs? -- Pior:
São todas tristes e feias.
Saias pretas, grossas meias...
Corre-lhes sangue nas veias
Por milagre do Senhor.
Que fazem durante o dia?
-- Aprendem a soletrar.
A coser... E o sol? E o ar?
Quando pensam em lhes dar
Uma lição de alegria?
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
domingo, 4 de dezembro de 2016
#56 - CHAMARAM-ME CIGANO, José Afonso
Chamaram-me um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rês
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela
A minha sepultura
Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive
O diabo na mão
Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi
O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito
De penas dormi
Puseram-me a ferros
Soltaram-me o cão
Mas tive o diabo na mão
Voltei de charola
De cilha e arnez
Amigo, vem cá
Outra vez
Subi uma escada
Ganhei dinheirama
Senhor D. Fulano Marquês
Perdi na roleta
Ganhei no gamão
Mas tive
O diabo na mão
Ao dar uma volta
Caí do lancil
E veio
O diabo a ganir
Nadavam piranhas
Na lagoa escura
Tamanhas
Que tal nunca vi
Limpei a viseira
Peguei no arpão
Mas tive
O diabo na mão
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